Reflexões 11 min read

Os três motores

"A dedução prova que algo deve ser; a indução mostra que algo realmente é operante; a abdução apenas sugere que algo pode ser." (Peirce, Collected Papers 5.171)

Os três motores
Sobre como pensamos no trabalho, e como o trabalho atrapalha como pensamos.

A reunião está marcada para uma hora. Tem oito pessoas na sala. O assunto é uma decisão que precisa sair. Aos cinquenta minutos, ninguém decidiu nada. Alguém continua trazendo "mais um dado importante". Outro insiste que "precisa pensar melhor". Um terceiro já cravou a resposta na primeira frase e está irritado porque os outros não chegaram lá ainda. Um quarto não falou e provavelmente vai sair sem ter formado opinião sobre coisa nenhuma.

Eu vejo essa cena há muitos anos. Acho que a maior parte das pessoas que está nessa sala não percebe uma coisa simples: cada uma está usando um motor diferente para pensar, e ninguém combinou de usar o mesmo no mesmo momento.

Esse texto é sobre esses motores. Vou apoiar a discussão em autores que estudaram isso a sério, porque a minha observação sozinha não fecha — mas a graça pra mim é cruzar o que eu vejo no dia a dia com o que esses autores demonstraram. Quero tentar entender por que tanta gente boa, em tanto escritório bom, sai cansada com a sensação de não ter andado.

Os três motores

Foi um filósofo americano, Charles Sanders Peirce, quem nomeou os três motores com a clareza que ainda usamos hoje. Em uma frase de 1903 que vale a leitura calma, ele resumiu:

"A dedução prova que algo deve ser; a indução mostra que algo realmente é operante; a abdução apenas sugere que algo pode ser." (Peirce, Collected Papers 5.171)

Em palavras menos formais, pra mim:

O primeiro motor é o do detetive — a indução. Você junta evidência, vai colecionando sinais, e quando tem uma pilha grande o bastante, percebe um padrão. "Notei que toda vez que o cliente X liga, a reclamação vem do mesmo time." Esse jeito de pensar é confortável. Você está sempre num "ainda estou observando". Não fecha. Não erra grosso. Mas também não decide.

O segundo motor é o do médico de pronto-socorro — a abdução. O cara olha três sintomas, olha o relógio, e arrisca um diagnóstico. Pode errar. Tem que estar pronto pra voltar atrás. Mas ele salta. Pega o que tem e propõe uma explicação que ninguém disse antes. Peirce foi enfático sobre isso: pra ele, nenhuma ideia nova jamais chega à ciência pela dedução ou pela indução — ela chega pela abdução. É de onde vem tudo que é novo. É arriscado. E quando dá certo, parece mágica.

O terceiro motor é o do contador — a dedução. Tem uma regra, tem um caso, ele aplica e diz: passa ou não passa. "O orçamento é esse, o pedido extrapola, então não vai." Não tem espaço pra criatividade. Não precisa. O valor dele é fechar. Decidir. Pôr ponto final. Não inventa nada novo — a conclusão já estava dada nas premissas. Mas é o motor do compromisso.

Os três são necessários. Nenhum método sério dispensa nenhum dos três. O detetive descobre o padrão. O médico arrisca a explicação. O contador fecha e libera.

O problema não é nenhum deles. O problema é a hora de trocar de motor.

O pedágio invisível

Acho que ninguém me ensinou isso na escola, e provavelmente ninguém me ensinou no trabalho. Mas mudar de motor custa.

Não é metáfora. Daniel Kahneman, em Thinking, Fast and Slow (2011), mostrou que o esforço deliberado de raciocínio — o que ele chama de Sistema 2 — é regido pela lei do menor esforço: dadas várias formas de chegar num objetivo, a gente puxa por padrão a menos custosa. E mais: alternar entre tarefas que exigem o Sistema 2 é especialmente caro, sobretudo sob pressão de tempo. A mudança em si custa, e a gente paga inconscientemente.

Sair do detetive (que está confortável, juntando mais um dado) pra entrar no médico (que tem que arriscar uma explicação com o que tem) dói. E sair do médico (que acabou de propor uma explicação que ele acha boa) pra entrar no contador (que vai matar duas outras hipóteses e cravar a terceira) dói mais ainda.

Esse pedágio é invisível. Ninguém vê. Você só sente, do lado de dentro, que "travou". Que "não está saindo". Que a reunião não anda. Que você ficou ali rodando, lendo o mesmo e-mail três vezes, olhando o mesmo gráfico, e não decide.

Eu acho que a maior parte do que a gente chama de "improdutividade" no trabalho é isso. Não é falta de inteligência. Não é preguiça. É a pessoa pagando, sem saber, o pedágio de trocar de motor — e como ela não sabe que está pagando, atribui a sensação de travamento a outra coisa qualquer. "Estou cansado". "Falta dado". "Preciso de mais reuniões".

Kahneman tem outro conceito que cabe bem aqui, a facilidade cognitiva (cognitive ease). O cérebro confunde fluência com verdade. Quando algo vem fácil, com cara de pronto, a gente acredita mais. E quando algo exige troca de motor — exige aquela hesitação desconfortável de migrar do detetive pro médico — o cérebro interpreta o desconforto como sinal de que tem coisa errada, e não como sinal de que tem coisa difícil. Por isso a gente foge pra mais um dado, pra mais uma reunião, pra mais um café. Tudo menos ficar no atrito.

Cada pessoa tem um motor padrão?

Penso que cada pessoa tem um motor que dispara primeiro. Não é o único que ela consegue usar. É o que ela puxa por default quando o problema chega.

A pessoa do motor do detetive abre tudo. Quer mais entrevistas, mais pesquisa, mais conversa. Adora a fase de descoberta. Sabe quando o consultor errou o tom do briefing. Adia decisão. E quando o prazo aperta, em vez de fechar, ela pede prorrogação. Sempre tem mais um sinal pra olhar.

A pessoa do motor do médico está sempre com uma hipótese pronta. Chega na reunião com a resposta antes do problema ter sido descrito. Acerta com frequência impressionante. E erra feio quando erra, porque já saltou e não quer voltar. Tem ideia de produto novo toda semana. Começa muita coisa. Termina pouca.

A pessoa do motor do contador é a que defende o orçamento. Não sai dos critérios. Manda no comitê. Acha "informal" o time que abre as coisas no Miro. Vai ter dificuldade com qualquer reunião onde a pergunta é "e se a gente fizesse diferente?". Vai querer saber as regras antes.

Não é nenhum elogio nem ofensa. É observação. As três pessoas existem em qualquer time. E o desconforto que cada uma sente com a outra é, no fundo, a dor de ver alguém usando um motor que ela não usa por padrão.

Eu mesmo sou um abridor crônico. Saio do detetive pro médico com facilidade e vice versa — adoro abrir e arriscar a explicação. Mas quando chega na hora do contador, fechar, matar as outras hipóteses, sentar e cravar — aí eu sofro. Já comecei mais projeto do que terminei na minha vida.

Aqui vale destacar um achado de Keith Stanovich, psicólogo cognitivo, em What Intelligence Tests Miss (2009): a racionalidade — a capacidade de raciocinar bem — é estatisticamente independente da inteligência medida por QI. Ele cunhou um termo para isso, disracionalia: gente muito inteligente que decide muito mal. E descreve o ser humano como um avarento cognitivo (cognitive miser) — por padrão, todo mundo gravita para o processamento de menor custo.

Isso muda o jogo. "Fulano é inteligente, devia conseguir fechar" é um diagnóstico errado. A capacidade de transitar entre motores — sobretudo o esforço dedutivo de matar hipóteses concorrentes e cravar uma — é uma habilidade separada da inteligência. Não é dom. Tem gente brilhante que não consegue. Tem gente menos brilhante que aprendeu a fazer.

Tem outro autor, Gary Klein, que ajuda a entender por que alguns saltam bem e outros mal. Em Sources of Power (1998), ele estudou bombeiros, enfermeiros de UTI, comandantes de batalha — gente que decide rápido sob pressão. Descobriu que o especialista decide bem porque carrega uma biblioteca mental de casos — ele reconhece o padrão da situação e salta para a ação adequada quase sem comparar opções. Klein chama isso de recognition-primed decision. Em outras palavras, o motor do médico só é bom em quem tem repertório. Quem é novato no domínio e tenta abduzir vai errar, não porque é burro, mas porque a biblioteca dele ainda é pequena.

Isso me parece importante numa empresa, e quase ninguém leva em conta: a gente espera que o júnior "tenha iniciativa" e arrisque, e depois cobra quando ele arrisca errado. O que ele precisava era de mais tempo no detetive antes de entrar no médico. Não tinha biblioteca pra saltar.

O escritório te força a trocar e não te ensina

O trabalho de escritório, do jeito que ele é organizado, te obriga a trocar de motor o tempo todo — e não te ensina a fazer essa troca. Pior: ele finge que o trabalho importante é só um dos motores.

A reunião de entendimento quer você no detetive.

A apresentação ao comitê quer você no contador.

A sala de inovação quer você no médico.

E o e-mail entre uma coisa e outra te obriga a ficar pulando.

Você sai de uma reunião onde estava aberto, ouvindo cliente, no detetive, e vinte minutos depois entra numa onde tem que defender o orçamento do trimestre que vem, no contador, e a pessoa que abre a porta espera que você esteja firme, com argumento pronto. Como? Ninguém explicou como se faz isso. Você só sente que chegou meio bobo na segunda reunião e levou três quartos do tempo pra "engatar". Aquilo era a troca de motor, mal feita, no susto.

Chris Argyris e Donald Schön, em estudos clássicos de aprendizagem organizacional, descreveram o que chamaram de single-loop learning vs double-loop learning. No single-loop, a pessoa ou a organização recebe uma regra ou meta e otimiza dentro dela. No double-loop, ela questiona a própria regra. Argyris demonstrou repetidamente que organizações sob pressão tendem ao single-loop — preenchem o artefato anterior como "premissa dada" e derivam o próximo passo, sem reabrir nada. Os autores chamaram esse comportamento de rotinas defensivas (defensive routines). Não é má-fé. É como a organização se protege do desconforto da troca de motor.

Acho que essa é uma das razões pelas quais reuniões em sequência são tão destrutivas, e por que o pessoal que faz home office quase sempre relata estar mais cansado mentalmente: a troca constante de motor sem nenhum espaço pra pagar o pedágio, e uma cultura organizacional que recompensa quem fica no single-loop (não questiona, entrega o que pediram) e penaliza quem entra no double-loop (questiona a premissa e atrasa o cronograma).

Os comitês são do contador

Tem uma coisa que sempre me incomodou e que agora consigo nomear melhor.

Comitê de investimento. Comitê de projetos. Comitê de orçamento. Gate de aprovação. Checklist de release. Avaliação de desempenho. Tudo isso é motor do contador. Aplica-se um critério, decide-se passa ou não passa.

Não é defeito. Comitê de investimento tem que ser do contador. É a função dele.

Roger Martin, na Rotman School of Management, descreveu essa tensão melhor que ninguém em The Design of Business (2009). Ele chama os dois polos de confiabilidade (reliability — processo repetível, dedutivo, defensável com dado do passado) e validade (validity — fazer a coisa certa, o que exige abdução e tolerância ao risco). E a tese dele, empírica, é dura: organizações maduras sobre-otimizam confiabilidade e sufocam validade, porque a confiabilidade é previsível e a validade não tem como ser provada antes do fato. Martin chama isso de "funil do conhecimento": mistério → heurística → algoritmo. As empresas vivem do algoritmo (contador), mas o que as fez existir um dia foi a abdução de alguém no nível do mistério.

Quando a empresa inteira começa a achar que trabalho de verdade é o trabalho do contador, a gente perde duas coisas. Primeiro, perde a paciência com a fase do detetive (que parece improdutiva porque não decide nada). Segundo, perde a coragem para o médico (que parece irresponsável porque arrisca sem ter certeza).

E aí o que sobra? Sobra um monte de gente fingindo que está usando o motor do contador o tempo todo. Olha pra qualquer apresentação corporativa: tem premissa, tem conclusão, tem recomendação. Parece tudo deduzido com base em dado sólido. Mas se você cutuca, na maioria das vezes alguém abduziu no chuveiro, encheu de gráfico depois, e vendeu como dedução.

Não estou dizendo que isso é desonesto. Estou dizendo que isso é o que acontece quando a única forma aceita de pensar publicamente é a do contador. Os outros motores rodam, mas escondidos.

A IA piorou isso

Antes a gente pelo menos via o esforço. A pessoa abriu o Excel, ficou três horas, voltou com a planilha. Você sabia, mais ou menos, em que motor ela estava.

Agora a pessoa pede pra IA e em vinte segundos volta com uma análise que parece dedução perfeita. Não foi dedução. Foi a IA fazendo um chute educado com cara de conclusão.

Aqui o Kahneman e o Stanovich se juntam contra a gente: a facilidade cognitiva (cognitive ease) faz a saída fluente parecer verdadeira, e o avaro cognitivo (cognitive miser) que mora em todo mundo agradece — porque pular o esforço é o que ele queria. Resultado: a gente trata o texto pronto da IA como se fosse motor do contador, quando na verdade foi a IA abduzindo sozinha e vestindo de dedução.

Eu mesmo me peguei fazendo isso. Pedi ajuda pra IA pra "estruturar uma análise" e o que ela me devolveu era na verdade três opções que ela inventou, vestidas de conclusão. Quase mandei pro time achando que tinha resolvido o problema. Resolvi nada. A IA abriu, no lugar onde eu deveria ter aberto. E eu ia carimbar a abertura dela como se fosse meu fechamento.

E pior: o músculo de trocar de motor — que já era fraco — atrofia ainda mais. Porque a pessoa pula direto do problema pra resposta sem ter passado por nenhum dos três motores conscientemente.

A pergunta que eu não consigo responder

Agora vem a parte chata.

Reconhecer os três motores é uma coisa. Treinar os três motores é outra. Treinar a troca entre eles é uma terceira, ainda mais difícil.

Aqui tem um aviso importante, e quase todo mundo cai na armadilha que ele descreve. Em 2008, um grupo de psicólogos cognitivos, examinando a ideia popular de que cada aluno tem um "estilo de aprendizagem" e que ensinar adaptado ao estilo dele melhora o resultado. Conclusão: não há base de evidência adequada para isso. Vários estudos bem-feitos contradizem a hipótese. Adaptar o ensino ao "estilo" do aluno não funciona.

Por que isso importa aqui? Porque a primeira intuição de qualquer gestor que entende o conceito dos três motores é dizer: "ah, então eu identifico o motor de cada pessoa e ensino do jeito dela". Pashler mostra que isso é caminho errado.

A saída — e aqui eu estou caminhando, não tenho a resposta — é provavelmente o oposto: não adaptar o ensino ao motor do aluno, mas dar a ele o vocabulário pra perceber em que motor ele está e treinar a troca para os outros, de propósito. Em vez de virar especialista no seu motor padrão, virar consciente da troca.

Mas mesmo essa direção esbarra na pergunta concreta: como?

Eu, por exemplo, sei que sou ruim no contador. Saberia exercitar isso significa quê? Fazer mais checklist? Fazer mais matemática? Forçar prazo curto? Não sei. Já tentei algumas dessas. Algumas funcionam um pouco. Nenhuma me transformou.

Eu vejo pessoas no trabalho que são contadores puros e que não conseguem abrir nem se a vida delas dependesse. O que faz alguém aprender a abrir? Mais brainstorm? Mais design thinking? Tirar a planilha da mão? Tudo isso me parece superficial.

E o médico? Como se aprende a saltar com responsabilidade? A arriscar uma explicação que ainda não está dada nos dados, mas estar pronto pra abandonar essa explicação se outra evidência aparecer? Como se ensina coragem com humildade? Klein mostrou que é experiência — repertório de casos. Mas como se acelera repertório, num escritório que não te deixa errar?

A escola não ensina nada disso. A faculdade também não. O treinamento corporativo trata como se fosse "soft skill" e dá curso de "tomada de decisão" que é só checklist disfarçado, ou seja, mais motor do contador querendo resolver o problema dos outros motores.

Eu queria saber. Acho que se eu soubesse, valia mais que metade do MBA que já fiz na vida.

Como se treina cada um dos três motores? E principalmente, como se treina a troca entre eles, que é onde, na minha visão, mora a maior parte do valor de uma cabeça boa?

Se você souber, me conta.

Eu ainda estou pensando.

Leituras citadas

  • Peirce, C. S. Collected Papers of Charles Sanders Peirce (CP 5.171). Harvard University Press. Onde Peirce sintetiza dedução, indução e abdução com a frase "deve ser / é operante / pode ser".
  • Kahneman, D. Thinking, Fast and Slow. Farrar, Straus and Giroux, 2011. Sistemas 1 e 2, facilidade cognitiva, lei do menor esforço, custo de alternância de tarefa.
  • Stanovich, K. E. What Intelligence Tests Miss: The Psychology of Rational Thought. Yale University Press, 2009. Disracionalia, avaro cognitivo, independência entre racionalidade e QI.
  • Klein, G. A. Sources of Power: How People Make Decisions. MIT Press, 1998. Decisão primada por reconhecimento (RPD), expertise como biblioteca de padrões.
  • Argyris, C.; Schön, D. A. Organizational Learning: A Theory of Action Perspective. Addison-Wesley, 1978. Aprendizagem de ciclo único e duplo, rotinas defensivas.
  • Martin, R. L. The Design of Business: Why Design Thinking Is the Next Competitive Advantage. Harvard Business Press, 2009. Tensão confiabilidade × validade, funil do conhecimento.
  • Pashler, H.; McDaniel, M.; Rohrer, D.; Bjork, R. Learning Styles: Concepts and Evidence. Psychological Science in the Public Interest, 9(3), 105–119, 2008. Ausência de evidência para a hipótese de adaptar ensino ao estilo do aluno.